Renascido de um bueiro
Mal esperou dar meia noite e foi pra cama. Sozinho, não via motivos pra comemorar. Nem mesmo a regulamentação de sua aposentadoria o fazia se animar. Do outro lado da cidade, o lado paupérrimo daquele lugar, onde miseráveis ensandecidos extravasavam a espera do ano novo, que de diferente era só o número, afinal, a vida continuaria a ser desgraçada como antes, Weldon e seus amigos, garotos entre oito a doze anos, começariam sua via sacra por toda cidade a procura de alguns trocados que, na cultura daquela gente, simbolizava um “bom princípio de ano novo”.
Enquanto percorriam cidade adentro, uma fina garoa os acompanhava – por ora, as almas daqueles miseráveis estavam sendo limpas por providência divina – naquela dura jornada, e os louros obtidos eram insuficientes para satisfazer todas aquelas cabeças; alguns centavos enferrujados e balas baratas eram distribuídos pela nata da sociedade. Os maiores é quem tomava as rédeas da situação, mas eram os menores que geralmente se davam bem. Deviam mesmo aproveitar o auge, gozarem de suas jovialidades, já afetadas pelas mazelas advinhas da fome e das perdas, mas que de nada influenciavam em suas esperanças.
— Tio, me dá bom princípio de ano novo?
— E quem é que vai dar pra mim? Minha esposa me largou, fui demitido esse ano, meus filhos me odeiam, e ainda por cima não to achando a chave do meu carro… Grande princípio de ano… – dizia enfurecido e melancólico um sujeito que saia alcoolizado de um clube da cidade.
Aos roncos, o velho dormia feito uma pedra, sonhava com seus tempos de menino, com suas insones noites na farra quando jovem, e até os últimos momentos em família, com a mulher ainda viva, e filhos, netos e noras presentes. As solas gastas dos sapatos de Weldon, que começavam a partir e a formar feridas sobre seus calcanhares nem mesmo eram sentidas; a cada ano que passava uma estranha carapaça revestia e protegia os corpos daqueles desvalidos. Enquanto os corpos ficavam mais resistentes, as almas ficavam mais sensíveis. Os mais velhos, viam claro a maldade, o desprezo e a ira das pessoas. A cada sentimento ruim que lhes eram enviados, uma pequena parte da inocência de outrora se desvanecia. Por um lado, isso era bom, pois tal amadurecimento precoce protegia os menores de pedófilos que sem nenhum pudor diziam “lhe dou uma moedinha se você fizer um servicinho aqui pro tio”.
O dia amanhecia e Weldon e seus amigos havia chegado na rua em que o velho morava. Aquela criatura solitária fatigada pelo tempo residia em um grande sobrado fúnebre, de pintura verde abacate já um tanto desgastada. O telhado apodrecido possuía uma chaminé deveras encardida; no quintal, havia um quartinho velho de madeira, com muito mato em volta; entulhos e carcaças de carros que também ajudavam a adornar aquele local curiosamente contrastavam com uma jabuticabeira vigorosa próxima ao muro. Poucos tiveram coragem de ir até lá, mas Weldon, 9 anos, era destemido, e não hesitou em ir; bateu na porta e falou:
— Oi, bom dia. O senhor tem algum bom princípio de ano novo pra dar pra gente?
— Mas é claro: Bom princípio de ano novo pra todos vocês!!! — disse animado o velho.
— Não tio, o que eu quero saber, é se o senhor tem algum trocado pra dar pra gente…
— E quem foi quem falou pra você que começar o ano com alguns trocados significa ter um bom princípio de ano?! – falou irônico ao garoto.
— Ééé, que… Sabe tio, somos muito pobres e todo dinheiro que vier é bem-vindo!
— Garoto, princípio é o começo, é o início de uma nova ação, de uma nova forma de agir, de pensar… E tenho certeza que você e seus amigos não estão pelo primeiro ano pedindo dinheiro para as pessoas. Se esse fosse o princípio correto de suas vidas, não estariam encarando essa situação vergonhosa todo ano. Sei da situação de vocês, da necessidade por dinheiro, mas não vou financiar a morte gradual de seu ninguém. Se dinheiro fosse bom princípio, ninguém mataria por isto… Tenham um bom dia! — disse, fechando a porta violentamente.
— O que houve Weldon, o velho não te deu nada? – disse Cegonha, o mais velho da turma.
— Deu sim, e está bem aqui! — falou, desferindo um soco contra o outro. Depois, caminhou alguns metros e jogou tudo que havia ganho num bueiro – jogou fora também velhos princípios que não deram certo. Ninguém entendeu o que havia acontecido, achavam que o velho havia dado droga à ele. (o fato é que o velho, deu muito mais que isso…)
Enquanto a maioria daqueles rapazes continuaram a insistir em “princípios” como o dinheiro, drogas e poder, Weldon preferiu escolhas mais tortuosas à primeira vista, mas mais satisfatórias no todo. Estudo, trabalho e bons relacionamentos o fizeram sair daquela vida sem expectativas e rumar até a fundação da PRINCÍPIOS, instituição filantrópica que realiza ações periódicas com o intuito de orientar crianças e jovens menos abastados. E todo ano, em datas festivas como Natal e Réveillon, Weldon sai as ruas com ônibus e vans para recolher menores carentes, os levando para ter um dia mais digno e feliz. Se esta não é uma ação transformadora, ao menos, é um bom princípio.
FIM
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