A onda dos afogados
“Governo bom é aquele que “atende” as exigências do povo, omitindo o cerne do problema.”
Com metrôs e ônibus cada vez mais lotados, a saída encontrada para aquela ocasião foi investir com tudo num velho conhecido daquele povo: o trem de passageiros – era a volta triunfal do transporte ferroviário naquele lugar!
Aos poucos, novas linhas foram criadas, a frota antiga foi substituída por uma nova, investidores passaram a ver com bons olho$ esse regresso ao passado. O charme de outrora, presente nas saudosas viagens de trem, estava de volta. A alegria era geral. Era a oportunidade que faltava para os mais jovens conhecerem os tão comentados encantos do trem. Pena que, com essa campanha toda, logo, eles estavam tão saturados quanto seus concorrentes (ônibus e metrôs). E se engana quem acha que isso reduziu o movimento destes outros meios; a nova geração – que cresceu sem o trem -, passado o oba-oba, retornou aos coletivos de antes; em compensação, a velha guarda – aquela que viveu o auge, o fim e o retorno do trem – abandonou os carros e afins e foram curar suas doses de saudades pelos trilhos recém inaugurados. Para driblar a concorrência e agregar a fatia que faltava, as empresas ferroviárias lançaram diversas vantagens aos mais jovens, entre elas, o “Suco do Dia” – onde um copo de refresco de frutas era oferecido a cada passageiro às quartas-feiras pelas manhãs. A estratégia, entretanto, fez com que parte da velha guarda abandonasse o barco.
Certo dia, passageiros da linha Sulanorte ouviram passos no teto do trem, sem saber o que acontecia tentaram se acalmar, até que um curioso abriu a janela, tirou a cabeça pra fora e se deparou com uma cena que há muito tempo não se via: cinco rapazes “surfavam” sobre o trem – era o retorno do surfe ferroviário, prática perigosa e altamente recriminada pelos moralistas de plantão. Quando o sujeito contou aos demais passageiros, o caos estava formado! A notícia correu o mundo… Pânico de um lado e frisson de outro. Centenas de simpatizantes contra um país todo! O que nem assim diminuiu a empolgação daquelas almas aventureiras, pelo contrário, as práticas foram se tornando constantes; o governo bem que tentou acalmar a população, a segurança foi reforçada dentro dos trens – estava terminantemente proibido aqueles atos de selvageria -, mas nada, nem a polícia e muito menos a vista grossa impediram “aqueles suicidas dos trilhos” de fazerem o que mais gostavam.
Percebendo que a situação era irremediável, um ousado deputado lançou uma proposta que oficializava o surfe ferroviário como esporte nacional. E pra surpresa de muitos, a proposta foi aceita pela maioria do senado. Aquilo dividiu a população, tanto que muitos abandonaram os trens; donos de empresas ferroviárias se revoltaram, fizeram greve, eram irredutíveis em suas decisões, até que um dia, acordaram e prometeram repen$ar o caso…
Com o surfe ferroviário reconhecido, os donos das linhas convencidos de que aquela prática era $audável para todos, bastava um plano infalível para conquistar o grosso da população. E não mediram esforços. A mídia teve papel preponderante neste flerte aos populares. Comerciais e telejornais seguidamente vendiam o esporte; e o que dizer das novelas, onde roteiros foram modificados para promover a prática?! Ao invés de dizer palavras doces depois daquele beijo, o casal da novela passou a soltar sempre um “bora pro trem”, “demorô”, entre outras gentilezas um com outro… Aquilo, acompanhado da poluição visual nas ruas e a criação de uma liga oficial de surfe ferroviário, fez com que a prática se tornasse popular e bem aceita pela sociedade. TVs, foram instaladas como forma de entreter e deixar os passageiros a par do que acontecia sobre suas cabeças. Elevadores foram criados dentro dos trens para incentivar o esporte. Era entrar, apertar o dois e conhecer um novo mundo! Até a velha Raibow, uma mulher antes ranzinza, surfou, e como uma verdadeira mártir, gritou às margens do Rio Dirtyn:
─ Delete a baixa estima e vem aqui pra cima!
Aquilo foi um marco no país – foi o acontecimento que restava para que o esporte se disseminasse de vez.
Nem mesmo algumas mortes de quedas abalaram a população, afinal, agora pagavam barato (começava ali a “Era da Deflação dos Coletivos”) , tinham aonde se sentar e ainda podiam desfrutar de um reality reality show (sem cortes!). Ludibriados, passageiros viviam com a certeza de que estavam pagando aquele real preço pela corrida. Mas tirar onda mesmo, só os “figurões” é que podiam, pois somente eles é que lucravam. Todo mundo queria gozar daquela “onda”: empresas ferroviárias, empresas de publicidade, empresas de materiais esportivos, empresas dos mais variados ramos; até empresas de camisinhas lucraram com a coisa, e claro, o governo, que agora estudava a melhor maneira de calar as famílias que perderam familiares com o novo e$porte. O que, cá entre nós, é um problema minúsculo se comparado a uma eventual tomada de consciência do grosso da população…
