Diário de um Foca
Projetando o futuro, modificando o presente!

O Parque

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Imagine a cena: cenários paradisíacos, pessoas bonitas, alegria que transborda aos quatro cantos, e claro, tudo isso na companhia de bons amigos. O que poderia me aborrecer nesta ocasião? Nada, nem o ônibus abarrotado, nem o preço salgado que paguei para estar ali. Este era meu sentimento em um primeiro momento. Ledo engano. O pior ainda estava por vir em meio a nossa jornada.

Agora imagine a seguinte cena:

Duas da tarde, o sol está de rachar. É ai que começa a nossa peregrinação; aquela que nos levará ao nosso objetivo em questão. Fiéis que somos, acreditamos intensamente que nossa luta não será em vão. Tolos!  Quem sabe, tudo que passaremos por lá talvez não valha a pena, nem mesmo a nossa fé nos prenderá. Nossa crença há de se tornar uma blasfêmia em caso de frustração. E pecadores seremos aos olhos dos outros.

Depois de muito caminhar, enfim, chegamos ao nosso ponto de partida, assim como você e eu, vemos velhos e crianças na mesma embarcada. Os raios solares fazem questão de mostrar a sua força perante aos humanos – pobres criaturas que ousaram sem piedade em maltratar as belezas da natureza, e hoje pagam com juros a ira da estrela mor do universo. Não há trégua, o castigo é duro, mas justo. São raras as vezes que encontramos uma pequena fresta onde possamos nos esconder da fúria solar. Mas fiéis que somos caminharemos firmes e fortes. O calor é intenso, com ele surge uma ávida sede. E onde estará água uma hora dessas? Se encontrar será por um preço altíssimo como é peculiar destas bandas. Penso: “Se sair perderei meu lugar e com ele minha fé” Penso e logo resisto.Decidido, ficarei até as últimas conseqüências, até que meu corpo chegue ao seu limite. Minha fé torná-se minha aliada, mas ao mesmo tempo minha inimiga. As dores começam a aparecer, a vitalidade já não é a mesma de anos atrás. Devo estar ficando velho. Minhas pernas, antes sustentáveis vigas, já não possuem o mesmo vigor de quando começara minha caminhada. Persisto em continuar, mesmo esmorecendo. O cenário agora é outro: a grandiosa paisagem já não existe mais, só se vê seca, dor e tudo de mais insólito que possa existir deserto afora.

Olhares desconfiados; temerosos-que chegam a dar frio na espinha de qualquer cristão – por parte de alguns irmãos. Porque isto, se somos todos iguais, e no final nosso destino será o mesmo?  Clemência a estes, afinal, estamos na mesma, e somente nossa fé e união nos conduzirá rumo ao nosso oásis dos sonhos. Junto a dor, a fome chega sem pedir licença. A sensação é horrenda; a mistura de dor, fome e sede atravessam nossas entranhas de tal modo que começo a perder a fé. Mas seguirei em frente, pois o paraíso me espera – ou não.

Eis que em meio a todo nosso martírio, a fila dá sinais vida e começa a andar, e nos vemos cada vez mais perto do nosso objetivo. Ilusão? Miragem? Creio que um pouco de cada. Nosso martírio há de continuar. O que fazer então? Olho para o céu e suplico: “Pai, porque me abandonastes?”. Um filme passa pela minha mente: nele me vejo mais jovem, mais forte, mais apto para enfrentar estes tipos de situações. Acredito que idade é muito relativa, pois vejo dúzias de anciãos em nossa peregrinação. Muitos até com um sorriso no rosto. Mas será por vontade própria ou para agradar os mais próximos? Quem sabe, cada um sabe aonde o cabresto arrebenta. Nossa peregrinação é assim, nos traz lembrança junto ao sofrimento, nos traz delírio junto ao alento. Em meio a tanta lamúria começo a ver a luz se aproximar perante aos meus olhos. Fico encantando diante de tamanha sublimidade.

A espera foi grande, mas enfim me encontro diante do meu oásis .Sofri, e como sofri, pra ser mais exato, pereci, mas aqui estou. Chega brilhar de tão vistoso. Até o ar por aqui soa diferente. Magistral, único. Tenho que aproveitar segundo a segundo, pois não é todo dia que poderei desfrutar de seus encantos.

“Um, dois, três…” Quando vejo já se passaram 10 segundos. Não sinto mais meus pés. Estou em estado de transe. Adrenalina a mil – ou como diria aquele:“minha naftalina”, intensifica-se o medo aliado a ansiedade.Abro os olhos sem receio algum, solto os braços, quero me sentir livre, mandar um fodá-se a este mundo sujo. Sinto que está chegando ao fim. Ouço o som das bobinas perderem a força. Quando me dou conta, estou novamente em solo, coração saindo pela boca, onde trago um forte sentimento de “missão comprida”- como quando passava de fase em algum game.

Uma experiência única, que mexe com nossos instintos, com nossos sentimentos mais loucos, no entanto, se me perguntarem se valeu a pena tanto sacrifício, serei enfático: Não. Porque? Isto eu deixo para os irmãos responderem por si mesmos, afinal, a peregrinação tende a continuar, elevando nossa crença às alturas, limitando nossos raciocínios e emoções, como manda o repertório.

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