Apesar dos fracassos recentes, uma coisa é indiscutível: a torcida do Palmeiras nunca abandonou o clube. Compareceu, apoiou, torceu, sofreu, chorou, gritou; se emocionou. E sempre esteve gerando receitas ao time. Parte disse, deve-se a compras de produtos oficiais. A camisa do “Palmeirinhas da Rua Turiassu”, da “Portumeiras”, do “Guarani da capital” (perdoem-me, este é apenas meu agrado aos “usurpadores de opinião”, aqueles infelizes que não pensam por si só, e que reproduzem com fidelidade opiniões lastimáveis provindas da mídia tendenciosa) por incrível que pareça ainda é uma das mais vendidas no Brasil. Eu tenho a minha coleção, que vai desde a verde esmeralda até a branca. Tenho também verde bandeira, listrada, verde limão, verde de todas os tons, até do antes Palestra Itália eu tenho – só me faltam a azul (2009), as verde piscinas (dos tempos de Parmalat) e as prateadas (2006/2007). Da gola normal a gola polo passando para a gola em V – é uma mais linda que a outra! Ser verde – e diferente – não era para qualquer um, coube então ao Palmeiras aceitar este desafio – e o fez com autoridade.
São diversos patrocínios e detalhes diferentes, cada uma a seu modo e relativa à sua época – se há uma camisa no futebol brasileiro que nunca foi igual esta é a do Palmeiras -, muitas mudanças nos tecidos, até mesmo numas reles réplicas baratas made in camelô. Enfim, tenho muitas e as visto com orgulho. A maioria é de número dez. De números e cores distintas, apenas uma me faltou nestes anos árduos e emocionantes acompanhando o Alviverde de Parque Antártica: a número 12, a de Marcos. Um pecado, não?! Parte dessa minha culpa deve-se a cultura do brasileiro, que corriqueiramente, veste camisas apenas de jogadores de linha. Tão difícil (e raro) quanto ver o Corinthians ser campeão da Libertadores é ver um cidadão andando com uma camisa de goleiro nas ruas. Nem mesmo Rogério Ceni e o SPFC com suas campanhas virais (como aquele ridículo 01…) acerca da camisa do arqueiro, conseguiram alcançar com sucesso tamanha proeza. E olha que Rogério Ceni merece tanta idolatria e respeito quanto Marcos…
Bem, mas deixando os querubins de lado e retornando aos santos e aos pecadores como eu, justifico essa minha falha devido ao meu otimismo exagerado e a minha tranqüilidade quanto ao futuro – o que me leva a postergar muita coisa. Como a compra da camisa do Santo, por exemplo. Em 2002, já mais do que convencido dos milagres de São Marcos, balancei depois da Copa em comprar uma camisa dele, mas por fim acabei comprando uma branca, com a premissa de que logo compraria a desejada camisa – assim que ganhássemos o Brasileiro daquele ano (pobre palmeirense!). Resultado: tive de usar a branca na série B… Sempre acreditando, e mais fã ainda de Marcos após tomar conhecimento de sua negativa a uma proposta milionária do Arsenal da Inglaterra – o que o levou a jogar a Segundona pelo Verdão – e devido as suas performances irrepreensíveis na campanha de volta a Série A, pensei: “Agora vai, com Love e Cia é só títulos, vou esperar mais um pouco pra comprar; deixa lançar o uniforme novo!”. Resultado: perda traumática do título do Paulistão de 2004 para o Paulista de Jundiaí e venda de Love pra Rússia que, indiretamente, significou a desistência do título Brasileiro de 2004. (o Palmeiras chegou em 4° lugar no campeonato daquele ano) E queira ou não, torcedor é movido por paixão, e a minha, apesar da boa campanha, tinha uma pitada de revolta.
Sucessivamente, aumentaram minhas promessas seguidas das decepções e as voltas triunfais de São Marcos que, me animavam a tal ponto de sempre voltar acreditar (raro foi quando não acreditei) e me fazer novamente adiar a compra. Sabe como é, né, Animal (Edmundo) de volta, camisa nova, título de 2008, enfim… Mas como toda boa divindade, sei que São Marcos me perdoaria pela minha falta.
Todo esse tempo, sempre estive convicto de que um dia o ciclo de Marcos dentro das quatro linhas se encerraria, embora que meu íntimo acreditasse que São Marcos era “imparável”, eterno, imortal, patrimônio, etc. Sabia da tristeza que sentiria quando ele parasse, por isso, optava por não pensar em tal possibilidade. Já há muito tempo atrás era (é e sempre será) estranho ouvir a escalação do Palmeiras, ao som do hino, nas muitas tardes ao longo da década passada com meus saudosos radinhos de pilha e da companhia de meu pai, sem escutar o repórter, amparado pelo “Quando surge o alviverde imponente”, sem mencionar em primeiro, o seguinte nome: MARCOS. Mas não sofria, pois sabia que logo ele estaria de volta!
A ausência de Marcos entre os relacionados soa tão estranho quanto para aquele torcedor palmeirense do início da década de setenta que tinha na ponta da língua a escalação, ou melhor, o mantra – pois não havia como não se sentir bem e ansiar por bons momento ao ouvir e repetir aqueles onze nomes – com os seguintes dizeres: Leão, Eurico, Luis Pereira, Alfredo e Zeca; Dudu e Ademir; Edu, Leivinha, César e Nei. Uma verdadeira sinfonia para qualquer apaixonado por futebol, em especial para os palestrinos.
São Marcos (…); quem diria que um dia aquele o sujeito humilde da pequena Oriente no interior paulista se tornaria ídolo de uma nação – de 15 milhões de palmeirenses, de 30 milhões de corintianos, de 35 milhões de flamenguistas e assim por diante? (Obs: lembrando que estes são números aproximados). A nação que Marcos conquistou, em partes deve-se a conquista da Copa do Mundo de 2002 pela seleção brasileira. Com atuações impecáveis e seguras, Marcos foi coadjuvante aos olhos da massa, eufórica pelas vitórias e pelos gols de Ronaldo e Rivaldo; entretanto, mesmo tardiamente – diria que ao fim da Copa, através de comentaristas brasileiros revoltados com a escolha do goleiro alemão Oliver Kahn como melhor da competição -, foi reconhecido.
Dessa composição entre humildade, lealdade (foram 20 anos de Palmeiras!), caráter, vibração, talento, irreverência – quem aqui nunca se matou de tanto rir com uma frase engraçada ou com mais um “causo” de bastidores que o goleiro contava nas saídas do campo ou nas coletivas? – e polêmica – sincero, apaixonado e explosivo como todo bom palmeirense, Marcos vira e mexe soltava os cachorros e abria o jogo, doesse a quem doer; só não fez mais pra que não sofresse punições das atrapalhadas gestões que passaram pelo Palestra Itália nos últimos anos –, o resultado só poderia resultar em um: o nascer de um grande jogador; minto, na verdade, um craque (sem exageros, afinal, hoje qualquer um já utiliza deste rótulo mesmo) e neste caso, conhecido como São Marcos.
O goleiro, foi Santo em todos os sentidos: ao unir torcedores rivais (hoje tristes com sua aposentadoria) e uma legião de fãs por todo Brasil; ao chamar o desesperançoso torcedor palmeirense aos estádios nos últimos anos; ao fazer o elo entre torcida e jogadores, ora alternando como funcionário, ora como torcedor; ao “segurar o rojão” nos momentos mais difíceis; ao tentar apaziguar os ânimos do time e do adversário em jogos tumultuados; foi santo em evitar menosprezos (como quando rejeitou ir bater um pênalti no jovem goleiro do Avaí pelo Brasileiro de 2011 quando o alviverde já vencia por 4 a 0); foi santo ao continuar, embora com inúmeras dores e lesões, fazendo seu papel em tão alto nível – mesmo já quando os reflexos e o corpo não eram mais os mesmos. Foi santo, em fazer o ainda orgulhoso (hoje um tanto magoado e desconfiado) torcedor palmeirense ter motivos para se orgulhar, em meio a tantos cabeças de bagre que sugaram de alguma forma o clube nos últimos tempos.
(* Aproveitando, deixo cá uma pergunta: Se Marcos tivesse sido o goleiro titular da “terceira academia’’ de Evair, Edmundo e cia, ele teria conseguido todo esse sucesso? EU particularmente acho que não, até pela forte concorrência que enfrentaria no gol da seleção com Taffarel e por fazer parte de um time espetacular, onde sabemos, o goleiro vem sempre por último.)
Santo, principalmente por sempre colocar o nome da instituição Palmeiras acima de seu ego. Marcos, assim como você, hoje sinto dores (tanto físicas quanto na alma) e talvez não consiga mais pular “junto com você” como fiz nas muitas decisões de pênaltis (a maioria triunfamos) nas quais tive o prazer de vê-lo se consagrar e elevar o nome do Palmeiras como tão bem fez, mesmo nos momentos mais dolorosos. (perdemos como Palmeiras, não como uns timinhos pequenos por aí que se dizem grandes…).
É inegável que, como um bom palmeirense, estou triste pela aposentadoria de Marcos; neste momento um enorme vazio toma conta de mim, um vazio que ficará ainda mais profundo quando ouvir as futuras escalações do Palmeiras – que se iniciava do número 12 não à toa: Marcos era o décimo segundo jogador do Palmeiras, isso quando não se multiplicava em campo – e escutar de sua própria boca a respeito de sua decisão. Não choro (por futebol chorei só quando a seleção perdeu a Copa de 98, depois disso segui firme, prometi não mais chorar; encher os olhos é normal, mas chorar mesmo foi só aquela vez), pois meu vazio não permite que nada e nem ninguém preencha este sentimento, nem mesmo o desabafo de algumas lágrimas sinceras.
O que será do Palmeiras sem Marcos ainda é uma incógnita. O que será dele sem o Palmeiras já é uma certeza: um profissional de sucesso. A relação Palmeiras-Marcos foi extremamente positiva e gratificante pra ambas as partes, em especial pro pentacampeão, que fez seu nome através do clube, e sem tirar seus méritos, também pelas suas muitas qualidades aqui já destacadas. Antes do jovem goleiro chegar na Academia de Futebol, o Palmeiras já era Palmeiras, e, se ultimamente o clube já estava se acostumando a viver sem ele, agora, mais do que nunca terá de adaptar a esta nova realidade. Sem Marcos em campo, o Palmeiras perde principalmente em qualidade (com todo respeito à Deola e cia) e em liderança. Por outro lado, ganha um cara sério, íntegro e querido por todos, que tende a ser extremamente útil para a marca Palmeiras, especialmente para o centenário que se aproxima. Que o Palmeiras se reerga novamente, já sem Marcos, e que isso, comece com uma boa Copa SP esse ano (revelando talentos e subindo-os para o time de cima), com a chegada de bons reforços para o time principal e com uma cartilha que vise prestar as devidas homenagens a um de seus maiores ídolos. Feito isso, poderá daí pensar em títulos.
Me recuso a me estender sobre dois fatos específicos de sua gloriosa carreira: a defesa do pênalti de Marcelinho em 2000 e a falha contra o Manchester em 99 – momentos antagônicos de sua trajetória, mas que são apenas fatos (Marcelinho que o diga…), e, de fato, o fato maior na carreira de São Marcos é que ele em si já era um fato: era a notícia, era local e personagem. Poucos tiveram essa façanha no futebol; poucos também são os que vingam na vida. Marcos para com a sensação de dever cumprido, com a sensação de que poderia ter feito mais – tanto ele quanto quem podia à ele -, mas nada disso apaga sua chama, pois ela sempre estará ativa na memória curta do brasileiro; e claro, na memória perturbada mas feliz de todo palmeirense. A minha camisa de número 12 ainda hei de comprar, mas, caso ainda continue a postergar, dormirei com a plena certeza de que sempre estive com ela; invisível, mágica, que envolveu meu coração, em amor, respeito e carinho por aquele sujeito figurão, que cativou a mim e a muitos pelo seu jeito de ser e agir.
Que o Palmeiras, o futebol brasileiro e o futebol mundial produzam em demasia novos Marcos, e que a vida, ensine aos mais ambiciosos que Deus é um só, mas que para ser Santo, não precisa muito: basta humildade, alto astral, competência, caráter e a certeza de que está dando o seu melhor, tanto para si, quanto para aqueles que confiaram em ti.
Obrigado, muito obrigado São Marcos!




