Diário de um Foca
Projetando o futuro, modificando o presente!

jan
06

                 Apesar dos fracassos recentes, uma coisa é indiscutível: a torcida do Palmeiras nunca abandonou o clube.  Compareceu, apoiou, torceu, sofreu, chorou, gritou; se emocionou. E sempre esteve gerando receitas ao time.  Parte disse, deve-se a compras de produtos oficiais. A camisa do “Palmeirinhas da Rua Turiassu”, da “Portumeiras”, do “Guarani da capital” (perdoem-me, este é apenas meu agrado aos “usurpadores de opinião”, aqueles infelizes que  não pensam por si só, e que reproduzem com fidelidade opiniões  lastimáveis provindas da mídia tendenciosa) por incrível que pareça ainda é uma das mais vendidas no Brasil. Eu tenho a minha coleção, que vai desde a verde esmeralda até a branca. Tenho também verde bandeira, listrada, verde limão, verde de todas os tons, até do antes Palestra Itália eu tenho –  só me faltam a azul (2009), as verde piscinas (dos tempos de Parmalat) e as prateadas (2006/2007). Da gola normal a gola polo passando para a gola em V – é uma mais linda que a outra! Ser verde – e diferente – não era para qualquer um, coube então ao Palmeiras aceitar este desafio – e o fez com autoridade.

                São diversos patrocínios e detalhes diferentes, cada uma a seu modo e relativa à sua época – se há uma camisa no futebol brasileiro que nunca foi igual esta é a do Palmeiras -, muitas mudanças nos tecidos, até mesmo numas reles réplicas baratas made in camelô.  Enfim, tenho muitas e as visto com orgulho. A maioria é de número dez. De números e cores distintas, apenas uma me faltou nestes anos árduos e emocionantes acompanhando o Alviverde de Parque Antártica: a número 12, a de Marcos.  Um pecado, não?! Parte dessa minha culpa deve-se a cultura do brasileiro, que corriqueiramente, veste camisas apenas de jogadores de linha.  Tão difícil (e raro) quanto ver o Corinthians ser campeão da Libertadores é ver um cidadão andando com uma camisa de goleiro nas ruas. Nem mesmo Rogério Ceni e o SPFC com suas campanhas virais (como aquele ridículo 01…) acerca da camisa do arqueiro, conseguiram alcançar com sucesso tamanha proeza. E olha que Rogério Ceni merece tanta idolatria e respeito quanto Marcos…

                Bem, mas deixando os querubins de lado e retornando aos santos e aos pecadores como eu, justifico essa minha falha devido ao meu otimismo exagerado e a minha tranqüilidade quanto ao futuro – o que me leva a postergar muita coisa. Como a compra da camisa do Santo, por exemplo. Em 2002, já mais do que convencido dos milagres de São Marcos, balancei depois da Copa em comprar uma camisa dele, mas por fim acabei comprando uma branca, com a premissa de que logo compraria a desejada camisa – assim que ganhássemos o Brasileiro daquele ano (pobre palmeirense!). Resultado: tive de usar a branca na série B…  Sempre acreditando, e mais fã ainda de Marcos após tomar conhecimento de sua negativa a uma proposta milionária do Arsenal da Inglaterra – o que o levou a jogar a Segundona pelo Verdão – e devido as suas performances irrepreensíveis na campanha de volta a Série A, pensei: “Agora vai, com Love e Cia é só títulos, vou esperar mais um pouco pra comprar; deixa lançar o uniforme novo!”. Resultado: perda traumática do título do Paulistão de 2004 para o Paulista de Jundiaí e venda de Love pra Rússia que, indiretamente, significou a desistência do título Brasileiro de 2004. (o Palmeiras chegou em 4° lugar no campeonato daquele ano) E queira ou não, torcedor é movido por paixão, e a minha, apesar da boa campanha, tinha uma pitada de revolta.

                Sucessivamente, aumentaram minhas promessas seguidas das decepções e as voltas triunfais de São Marcos que, me animavam a tal ponto de sempre voltar acreditar (raro foi quando não acreditei) e me fazer novamente adiar a compra.  Sabe como é, né, Animal (Edmundo) de volta, camisa nova, título de 2008, enfim… Mas como toda boa divindade, sei que São Marcos me perdoaria pela minha falta.

                Todo esse tempo, sempre estive convicto de que um dia o ciclo de Marcos dentro das quatro linhas se encerraria, embora que meu íntimo acreditasse que São Marcos era “imparável”, eterno, imortal, patrimônio, etc. Sabia da tristeza que sentiria quando ele parasse, por isso, optava por não pensar em tal possibilidade. Já há muito tempo atrás era (é e sempre será) estranho ouvir a escalação do Palmeiras, ao som do hino, nas muitas tardes ao longo da década passada com meus saudosos radinhos de pilha e da companhia de meu pai, sem escutar o repórter, amparado pelo “Quando surge o alviverde imponente”, sem mencionar em primeiro, o seguinte nome: MARCOS. Mas não sofria, pois sabia que logo ele estaria de volta!

                A ausência de Marcos entre os relacionados soa tão estranho quanto para aquele torcedor palmeirense do início da década de setenta que tinha na ponta da língua a escalação, ou melhor, o mantra – pois não havia como não se sentir bem e ansiar por bons momento ao ouvir e repetir aqueles onze nomes – com os seguintes dizeres: Leão, Eurico, Luis Pereira, Alfredo e Zeca; Dudu e Ademir; Edu, Leivinha, César e Nei. Uma verdadeira sinfonia para qualquer apaixonado por futebol, em especial para os palestrinos.

                São Marcos (…); quem diria que um dia aquele o sujeito humilde da pequena Oriente no interior paulista se tornaria ídolo de uma nação – de 15 milhões de palmeirenses, de 30 milhões de corintianos, de 35 milhões de flamenguistas e assim por diante? (Obs: lembrando que estes são números aproximados).  A nação que Marcos conquistou, em partes deve-se a conquista da Copa do Mundo de 2002 pela seleção brasileira. Com atuações impecáveis e seguras, Marcos foi coadjuvante aos olhos da massa, eufórica pelas vitórias e pelos gols de Ronaldo e Rivaldo; entretanto, mesmo tardiamente – diria que ao fim da Copa, através de comentaristas brasileiros revoltados com a escolha do goleiro alemão Oliver Kahn como melhor da competição -, foi reconhecido.

                Dessa composição entre humildade, lealdade (foram 20 anos de Palmeiras!), caráter, vibração, talento, irreverência – quem aqui nunca se matou de tanto rir com uma frase engraçada ou com mais um “causo” de bastidores que o goleiro contava nas saídas do campo ou nas coletivas? – e polêmica – sincero, apaixonado e explosivo como todo bom palmeirense, Marcos vira e mexe soltava os cachorros e abria o jogo, doesse a quem doer; só não fez mais pra que não sofresse punições das atrapalhadas gestões que passaram pelo Palestra Itália nos últimos anos –, o resultado só poderia resultar em um:  o nascer de um grande jogador; minto,  na verdade, um craque (sem exageros, afinal, hoje qualquer um já utiliza deste rótulo mesmo) e neste caso, conhecido como São Marcos.

                O goleiro, foi Santo em todos os sentidos: ao unir torcedores rivais (hoje tristes com sua aposentadoria) e uma legião de fãs por todo Brasil; ao chamar o desesperançoso torcedor palmeirense aos estádios nos últimos anos; ao fazer o elo entre torcida e jogadores, ora alternando como funcionário, ora como torcedor; ao “segurar o rojão” nos momentos mais difíceis; ao tentar apaziguar os ânimos do time e do adversário em jogos tumultuados; foi santo em evitar menosprezos (como quando rejeitou ir bater um pênalti no jovem goleiro do Avaí pelo Brasileiro de 2011 quando o alviverde já vencia por 4 a 0); foi santo ao continuar, embora com inúmeras dores e lesões, fazendo seu papel em tão alto nível – mesmo já quando os reflexos e o corpo não eram mais os mesmos. Foi santo, em fazer o ainda orgulhoso (hoje um tanto magoado e desconfiado) torcedor palmeirense ter motivos para se orgulhar, em meio a tantos cabeças de bagre que sugaram de alguma forma o clube nos últimos tempos.

(* Aproveitando, deixo cá uma pergunta: Se Marcos tivesse sido o goleiro titular da “terceira academia’’ de Evair, Edmundo e cia, ele teria conseguido todo esse sucesso? EU particularmente acho que não, até pela forte concorrência que enfrentaria no gol da seleção com Taffarel e por fazer parte de um time espetacular, onde sabemos, o goleiro vem sempre por último.)

                Santo, principalmente por sempre colocar o nome da instituição Palmeiras acima de seu ego. Marcos, assim como você, hoje sinto dores (tanto físicas quanto na alma) e talvez não consiga mais pular “junto com você” como fiz nas muitas decisões de pênaltis (a maioria triunfamos) nas quais tive o prazer de vê-lo se consagrar e elevar o nome do Palmeiras como tão bem fez, mesmo nos momentos mais dolorosos. (perdemos como Palmeiras, não como uns timinhos pequenos por aí que se dizem grandes…).

                É inegável que, como um bom palmeirense, estou triste pela aposentadoria de Marcos; neste momento um enorme vazio toma conta de mim, um vazio que ficará ainda mais profundo quando ouvir as futuras escalações do Palmeiras – que se iniciava do número 12 não à toa: Marcos era o décimo segundo jogador do Palmeiras, isso quando não se multiplicava em campo – e escutar de sua própria boca a respeito de sua decisão. Não choro (por futebol chorei só quando a seleção perdeu a Copa de 98, depois disso segui firme, prometi não mais chorar; encher os olhos é normal, mas chorar mesmo foi só aquela vez), pois meu vazio não permite que nada e nem ninguém preencha este sentimento, nem mesmo o desabafo de algumas lágrimas sinceras.

                O que será do Palmeiras sem Marcos ainda é uma incógnita. O que será dele sem o Palmeiras já é uma certeza: um profissional de sucesso. A relação Palmeiras-Marcos foi extremamente positiva e gratificante pra ambas as partes, em especial pro pentacampeão, que fez seu nome através do clube, e sem tirar seus méritos, também pelas suas muitas qualidades aqui já destacadas. Antes do jovem goleiro chegar na Academia de Futebol, o Palmeiras já era Palmeiras, e, se ultimamente o clube já estava se acostumando a viver sem ele, agora, mais do que nunca terá de adaptar a esta nova realidade. Sem Marcos em campo, o Palmeiras perde principalmente em qualidade (com todo respeito à Deola e cia) e em liderança. Por outro lado, ganha um cara sério, íntegro e querido por todos, que tende a ser extremamente útil para a marca Palmeiras, especialmente para o centenário que se aproxima. Que o Palmeiras se reerga novamente, já sem Marcos, e que isso, comece com uma boa Copa SP esse ano (revelando talentos e subindo-os para o time de cima), com a chegada de bons reforços para o time principal e com uma cartilha que vise prestar as devidas homenagens a um de seus maiores ídolos. Feito isso, poderá daí pensar em títulos.

                Me recuso a me estender sobre dois fatos específicos de sua gloriosa carreira: a defesa do pênalti de Marcelinho em 2000 e a falha contra o Manchester em 99 – momentos antagônicos de sua trajetória, mas que são apenas fatos (Marcelinho que o diga…), e, de fato, o fato maior na carreira de São Marcos é que ele em si já era um fato: era a notícia, era local e personagem. Poucos tiveram essa façanha no futebol; poucos também são os que vingam na vida. Marcos para com a sensação de dever cumprido, com a sensação de que poderia ter feito mais – tanto ele quanto quem podia à ele -, mas nada disso apaga sua chama, pois ela sempre estará ativa na memória curta do brasileiro; e claro, na memória perturbada mas feliz de todo palmeirense. A minha camisa de número 12 ainda hei de comprar, mas, caso ainda continue a postergar, dormirei com a plena certeza de que sempre estive com ela; invisível, mágica, que envolveu meu coração, em amor, respeito e carinho por aquele sujeito figurão, que cativou a mim e a muitos pelo seu jeito de ser e agir.

                Que o Palmeiras, o futebol brasileiro e o futebol mundial produzam em demasia novos Marcos, e que a vida, ensine aos mais ambiciosos que Deus é um só, mas que para ser Santo, não precisa muito: basta humildade, alto astral, competência, caráter e a certeza de que está dando o seu melhor, tanto para si, quanto para aqueles que confiaram em ti.

 Obrigado, muito obrigado São Marcos!

 

dez
31

          Mal esperou dar meia noite e foi pra cama. Sozinho, não via motivos pra comemorar. Nem mesmo a regulamentação de sua aposentadoria o fazia se animar. Do outro lado da cidade, o lado paupérrimo daquele lugar, onde miseráveis ensandecidos extravasavam a espera do ano novo, que de diferente era só o número, afinal, a vida continuaria a ser desgraçada como antes, Weldon e seus amigos, garotos entre oito a doze anos, começariam sua via sacra por toda cidade a procura de alguns trocados que, na cultura daquela gente, simbolizava um “bom princípio de ano novo”.

         Enquanto percorriam cidade adentro, uma fina garoa os acompanhava – por ora, as almas daqueles miseráveis estavam sendo limpas por providência divina – naquela dura jornada, e os louros obtidos eram insuficientes para satisfazer todas aquelas cabeças;  alguns centavos enferrujados e balas baratas eram distribuídos pela nata da sociedade. Os maiores é quem tomava as rédeas da situação, mas eram os  menores que geralmente se davam bem. Deviam mesmo aproveitar o auge, gozarem de suas jovialidades, já afetadas pelas mazelas advinhas da fome e das perdas, mas que de nada influenciavam em suas esperanças.

             — Tio, me dá bom princípio de ano novo?

         — E quem é que vai dar pra mim? Minha esposa me largou, fui demitido esse ano, meus filhos me odeiam, e ainda por cima não to achando a chave do meu carro… Grande princípio de ano… – dizia enfurecido e melancólico um sujeito que saia alcoolizado de um clube da cidade.

          Aos roncos, o velho dormia feito uma pedra, sonhava com seus tempos de menino,  com suas insones noites na farra quando jovem, e até os últimos momentos em família, com a mulher ainda viva, e filhos, netos e noras presentes. As solas gastas dos sapatos de Weldon, que começavam a partir e a formar feridas sobre  seus calcanhares nem mesmo eram sentidas; a cada ano que passava uma estranha carapaça revestia e  protegia os corpos daqueles desvalidos.  Enquanto os corpos ficavam mais resistentes, as almas ficavam mais sensíveis. Os mais velhos, viam claro a maldade, o desprezo e a ira das pessoas. A cada sentimento ruim que lhes eram enviados, uma pequena parte da inocência de outrora se desvanecia. Por um lado, isso era bom, pois tal amadurecimento precoce protegia os menores de pedófilos que sem nenhum pudor diziam “lhe dou uma moedinha se você fizer um servicinho aqui pro tio”.

        O dia amanhecia e Weldon e seus amigos havia chegado na rua em que o velho  morava. Aquela criatura solitária fatigada pelo tempo residia em um grande sobrado fúnebre, de pintura verde abacate já um tanto desgastada. O telhado apodrecido possuía uma chaminé deveras encardida; no quintal, havia um quartinho velho de madeira, com muito mato em volta; entulhos e carcaças de carros que também ajudavam a adornar aquele local curiosamente contrastavam com uma jabuticabeira vigorosa próxima ao muro. Poucos tiveram coragem de ir até lá, mas Weldon, 9 anos, era destemido, e não hesitou em ir; bateu na porta e falou:

            — Oi, bom dia. O senhor tem algum bom princípio de ano novo pra dar pra gente?

            — Mas é claro: Bom princípio de ano novo pra todos vocês!!! — disse animado o velho.

            — Não tio, o que eu quero saber, é se o senhor tem algum trocado pra dar pra gente…

            — E quem foi quem falou pra você que começar o ano com alguns trocados significa ter um bom princípio de ano?! – falou irônico ao garoto.

             — Ééé, que… Sabe tio, somos muito pobres e todo dinheiro que vier é bem-vindo!

         — Garoto, princípio é o começo, é o início de uma nova ação, de uma nova forma de agir, de pensar… E tenho certeza que você e seus amigos não estão pelo primeiro ano pedindo dinheiro para as pessoas. Se esse fosse o princípio correto de suas vidas, não estariam encarando essa situação vergonhosa todo ano. Sei da situação de vocês, da necessidade por dinheiro, mas não vou financiar a morte gradual de seu ninguém. Se dinheiro fosse bom princípio, ninguém mataria por isto… Tenham um bom dia!  — disse, fechando a porta violentamente.

            — O que houve Weldon, o velho não te deu nada? – disse Cegonha, o mais velho da turma.

          — Deu sim, e está bem aqui!  — falou, desferindo um soco contra o outro. Depois, caminhou alguns metros e jogou tudo que havia ganho num bueiro – jogou fora também velhos princípios que não deram certo. Ninguém entendeu o que havia acontecido, achavam que o velho havia dado droga à ele.  (o fato é que o velho, deu muito mais que isso…)

         Enquanto a maioria daqueles rapazes continuaram a insistir em “princípios” como o dinheiro, drogas e poder, Weldon preferiu escolhas mais tortuosas à primeira vista, mas mais satisfatórias no todo. Estudo, trabalho e bons relacionamentos o fizeram sair daquela vida sem expectativas e rumar até a fundação da PRINCÍPIOS, instituição filantrópica que realiza ações periódicas com o intuito de orientar crianças e jovens menos abastados. E todo ano, em datas festivas como Natal e Réveillon, Weldon sai as ruas com ônibus e vans para recolher menores carentes, os levando para ter um dia mais digno e feliz. Se esta não é uma ação transformadora, ao menos, é um bom princípio.

FIM

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Agradeço à todos que acompanharam o blog em mais um ano de existência!  Se me permitem a promessa (hoje pode!),  é quase certo que no ano que vem tenhamos algumas novidades nos moldes deste espaço, afinal, no ano que vem deixarei de ser um aspirante a foca, para me tornar um foca oficial… hehehe

Um feliz 2012, leitores! Aguardo vocês no ano que vem! 

Abraços 

Ivan

dez
14

“Governo bom é aquele que “atende” as exigências do povo, omitindo o cerne do problema.”

         Com metrôs e ônibus cada vez mais lotados, a saída encontrada para aquela ocasião foi investir com tudo num velho conhecido daquele povo: o trem de passageiros – era a volta triunfal do transporte ferroviário naquele lugar!

        Aos poucos, novas linhas foram criadas, a frota antiga foi substituída por uma nova, investidores passaram a ver com bons olho$ esse regresso ao passado. O charme de outrora, presente nas saudosas viagens de trem, estava de volta. A alegria era geral. Era a oportunidade que faltava para os mais jovens conhecerem os tão comentados encantos do trem. Pena que, com essa campanha toda, logo, eles estavam tão saturados quanto seus concorrentes (ônibus e metrôs). E se engana quem acha que isso reduziu o movimento destes outros meios; a nova geração – que cresceu sem o trem -, passado o oba-oba, retornou aos coletivos de antes; em compensação, a velha guarda – aquela que viveu o auge, o fim e o retorno do trem – abandonou os carros e afins e foram curar suas doses de saudades pelos trilhos recém inaugurados. Para driblar a concorrência e agregar a fatia que faltava, as empresas ferroviárias lançaram diversas vantagens aos mais jovens, entre elas, o “Suco do Dia” – onde um copo de refresco de frutas era oferecido a cada passageiro às quartas-feiras pelas manhãs. A estratégia, entretanto, fez com que parte da velha guarda abandonasse o barco.

        Certo dia, passageiros da linha Sulanorte ouviram passos no teto do trem, sem saber o que acontecia tentaram se acalmar, até que um curioso abriu a janela, tirou a cabeça pra fora e se deparou com uma cena que há muito tempo não se via: cinco rapazes “surfavam” sobre o trem – era o retorno do surfe ferroviário, prática perigosa e altamente recriminada pelos moralistas de plantão. Quando o sujeito contou aos demais passageiros, o caos estava formado! A notícia correu o mundo… Pânico de um lado e frisson de outro. Centenas de simpatizantes contra um país todo! O que nem assim diminuiu a empolgação daquelas almas aventureiras, pelo contrário, as práticas foram se tornando constantes; o governo bem que tentou acalmar a população, a segurança foi reforçada dentro dos trens – estava terminantemente proibido aqueles atos de selvageria -, mas nada, nem a polícia e muito menos a vista grossa impediram “aqueles suicidas dos trilhos” de fazerem o que mais gostavam.

        Percebendo que a situação era irremediável, um ousado deputado lançou uma proposta que oficializava o surfe ferroviário como esporte nacional. E pra surpresa de muitos, a proposta foi aceita pela maioria do senado. Aquilo dividiu a população, tanto que muitos abandonaram os trens; donos de empresas ferroviárias se revoltaram, fizeram greve, eram irredutíveis em suas decisões, até que um dia, acordaram e prometeram repen$ar o caso…

        Com o surfe ferroviário reconhecido, os donos das linhas convencidos de que aquela prática era $audável para todos, bastava um plano infalível para conquistar o grosso da população. E não mediram esforços. A mídia teve papel preponderante neste flerte aos populares. Comerciais e telejornais seguidamente vendiam o esporte; e o que dizer das novelas, onde roteiros foram modificados para promover a prática?! Ao invés de dizer palavras doces depois daquele beijo, o casal da novela passou a soltar sempre um “bora pro trem”, “demorô”, entre outras gentilezas um com outro… Aquilo, acompanhado da poluição visual nas ruas e a criação de uma liga oficial de surfe ferroviário, fez com que a prática se tornasse popular e bem aceita pela sociedade. TVs, foram instaladas como forma de entreter e deixar os passageiros a par do que acontecia sobre suas cabeças. Elevadores foram criados dentro dos trens para incentivar o esporte. Era entrar, apertar o dois e conhecer um novo mundo! Até a velha Raibow, uma mulher antes ranzinza, surfou, e como uma verdadeira mártir, gritou às margens do Rio Dirtyn:

        ─ Delete a baixa estima e vem aqui pra cima!

        Aquilo foi um marco no país – foi o acontecimento que restava para que o esporte se disseminasse de vez.

        Nem mesmo algumas mortes de quedas abalaram a população, afinal, agora pagavam barato (começava ali a “Era da Deflação dos Coletivos”) , tinham aonde se sentar e ainda podiam desfrutar de um reality reality show (sem cortes!). Ludibriados, passageiros viviam com a certeza de que estavam pagando aquele real preço pela corrida. Mas tirar onda mesmo, só os “figurões” é que podiam, pois somente eles é que lucravam. Todo mundo queria gozar daquela “onda”: empresas ferroviárias, empresas de publicidade, empresas de materiais esportivos, empresas dos mais variados ramos; até empresas de camisinhas lucraram com a coisa, e claro, o governo, que agora estudava a melhor maneira de calar as famílias que perderam familiares com o novo e$porte. O que, cá entre nós, é um problema minúsculo se comparado a uma eventual tomada de consciência do grosso da população…

nov
08

            Um antro de hipocrisia, isso que se tornou as redes sociais. Volta e meia, vejo campanhas estúpidas plantadas nesse meio. Uma das últimas, foi a dos personagens infantis como forma de “protesto contra a violência infantil”. Vejam só que incrível, nossos heróis, como Os Cavaleiros do Zoodíaco iriam defender as criancinhas indefesas dos milhões de pedófilos à solta… Isto que é gesto nobre!  Só não entendo o que diabos, aquela escória amarela, vulgo Bob Esponja, poderia fazer contra a fúria desses imorais? É, infelizmente vejo que deixei morrer a “criança que habitava em mim”.

            A mais nova dentre os censores de plantão foi propor e defender com unhas e dentes o tratamento do ex-presidente Lula, vítima de câncer, no SUS. Como se a culpa de todos os problemas do Brasil fossem do Lula…  Se esquecem da herança de grego que o presidente havia herdado, de seu time “competente” por trás de suas ações e da tal diplomacia que – estes tantos defendem, afinal, ela eleva o nome no país – tanto manchou e cerceou o governo petista. Mas o pior de tudo isso, é notar que essa grande maioria que o julga, provavelmente votou nele e, duvido muito que tratariam de um possível câncer no SUS.

            E se a crítica desses seres circunspectos beirava o ridículo, agora me faltam adjetivos pra definí-la.  “Onde já se viu, um país como o Brasil, permitir a liberação de drogas em um campus universitário?”. Partindo dessa premissa, percebo milhares de pessoas benévolas, que nunca pecam, que são livres de vícios, que vão a igreja todo domingo, que ajudam regularmente instituições de caridades e que lutam por mudanças – mesmo que por meio de seus cliques “ultra-revolucionários” – julgando as ações dessas aberrações, que sem nenhum pudor, mancham a história impoluta de nosso país.

         Vejam só que ironia, estes seres que tanto se calaram diante da greve dos Bancários e dos Correios, agora deram de julgar a maconha alheia, a classe social e a “baderna”, que aqueles estudantes da USP em SP causaram ao invadir a reitoria do campus. Já adianto que sou contra violência, que sou a favor da Polícia circulando em qualquer instituição de ensino e defensor ferrenho da liberdade individual de cada um. Sou contra apenas a este burburinho todo fomentado por pessoas de fora da USP. A maioria que os julga, por certo gostaria de estar lá, por certo são mentes incomodadas com seus virtuais fracassos, pois seguidores dos ditames da mídia e  da sociedade padrão, cresceram ouvindo e proferindo aquele famoso mantra: “tem que passar em universidade pública pra ser alguém na vida”. Frustrados, não pensam duas vezes antes de apontar o dedo em riste contra aqueles jovens, tidos como “playboys”, “maconheiros” e “rebeldes”. Além de generalizarem, o mais cômico de tudo isso, é que esta maioria que os julgam, não frequentam nenhuma “boca de lixo” aos finais de semana e se querem fazer algo que lhe apeteçam, dão lá o seu jeitinho. O grau de vacuidade é tanto, que esquecem que a instituição que estudam, lecionam ou trabalham, sofre do mesmo mal, com a diferença que, pra não causarem manifestos maiores, se calam adotando a política do “tudo FREE”. Além do mais, se tomam tanto às dores da depredação do “patrimônio público” que vocês financiam sem nenhuma objeção,  e que poucos usufruem, o que estão esperando para protestarem?!

           E por fim, que eu saiba, protestar nunca foi uma atividade voltada pra essa ou aquela classe, mas sim, um ato dos corajosos, e também, claro, de muitos oportunistas que querem aparecer de alguma forma, seja dentro do caos, ou fora dele, como lamentavelmente temos visto.

             E antes de desejarem mal ao presidente Lula – que não é lá flor que se cheire, mas é um ser humano como qualquer outro – e criticarem a postura de estudantes libertinos, apenas tomem cuidado, pois o “tiro pode sair pela culatra”. Norman Mailer tem uma teoria interessante, a da “rebelião das células”, que assevera que o câncer é uma doença square, ou seja, daqueles seres metódicos, cheio de regras, que primam o status quo tradicional e que aderem à política do establishment (cultura estabelecida). Isto se deve em razão da privação e do conformismo adotados por este grupo. A falta de liberdade e de uma postura transitória faz com que as células desse ser estabelecido,  se rebelem contra ele próprio.

          Antes que contrariem a teoria, apontando que Lula foi líder sindical, não se esqueçam que ele também foi presidente, e apesar de toda pompa e bajulação, o homem-indivíduo se vê privado de muitas coisas. Portanto, seres democratas, defensores da tão aclamada democracia, sejam mais maleáveis e passem a ver com outros olhos as ações que divirjam das suas. Menos julgamentos, menos inveja, menos hipocrisia e quiçá uma ervazinha de vez em quando, não faz mal a ninguém…

nov
01

Ô Cumpadre, que mal lhe pergunte: que é esse tar de “Rálouim”,

Que os homi qué usá saia,

Que os padre descomunga,

Que as moça só rebola

Chacoaiando suas bunda?

 

Ora homi, esse é o tar do nosso “Rálouim”…

Que sobra discurso

Que sobra cavaco

Que farta vergonha

E também uns sopapo…

 

Mas me diga direito homi, que muierada é essa?

Que finge que ri

Que nunca labutam

Com o nome de fruta

No tar “Rálouim”?

 

Aí se me cumprica cumpadri…

Só sei que esse tar de “Rálouim” (Halloween) é memo de lascá, né?!

Enquanto uns só se fantasia,

outros, já qué perdê o juízo

E dão de se disfarçá,

dia e noite de bandido…

 

Gozado memo…

“Farta” gostosura pra uns e farta pra outros…

E as travessura?!

Que antes era coisa de menino

E agora virô meio de vida,

dos safados dos caudilho.

 

Óia, esse tar de “Rálouim” pelo menos tem fazido bem pro seu Prestes!

Que anda vendendo de monte

E quando os “homi” aparece,

ele logo os corrompe…

 

Sabe, pensano bem… até que esse dia é bão memo!

Especiarmente agora, que nóis já usamo das nossa tradição….

Porque aqui, tudo vira festa!

Seja em velório, Carnaval, Copa do Mundo… E com esse danado não seria diferente…

E cá entre nóis cumpadre; o “Rálouim” daqui é o mió do mundo, né não?!

E sabe o que mais? Dane-se que enquanto o povo tira sesta,

sempre na maior curtição,

Isso vira uma floresta,

infestada de ladrão!

Eu quero é gandaia… quero curtir os da minha laia!

 

Sumemo cumpadre: E um viva a Curtura Nacionar

e ao nosso Rálouim…!

Se por lá esse troço assusta

Por aqui pouco engrandece

Mas pobre dos homi que vê a culpa

E que logo se entristecem…

 

―Ééé cumpadre, esse tar de “Rálouim” não me cheira bem… mas, bora curtir!

― A mim tamém cumpadre, a mim tamém… Bora!

(em seguida)

― Eitaaa, quem foi que amarrô o rabo da mula?!

― Sei não cumpadre, sei não… Deve ter sido ooo… ooo… Como era o nome memo?!

*** Texto dedicado ao mestre Carlos Drummond de Andrade, que hoje (31/10) completaria 109 anos.
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