
Talvez se Caroline – a doce menina do filme do filme “Poltergeist” – não fosse tão inocente não teria sido “sugada” pela TV e pelos espíritos que ali habitavam. Se fosse sagaz como Ester de “A Órfã”, provavelmente não teria passado por maus bocados. Controvérsias a parte, Ester representa o novo perfil das crianças de hoje. Aquelas que a cada dia surgem mais maliciosas e independentes… Esta liberdade acentuada é o que resulta na chegada precoce da juventude. Pra nossa sorte, a infância ainda perdura. Em outros moldes, mas ainda firme. Percebi isto no primeiro dia em que compareci a uma creche na qual realizarei pela faculdade um trabalho com crianças de cinco anos.
No começo aquele clima de tensão, derivado do medo da aceitação. Até que abre-se as porteiras e as ferinhas saem a disparada a nosso encontro. Num primeiro momento um silêncio paira no ar. Um clima chato, mas acreditem, iria sentir falta daquele silencio…
Passados quinze minutos as ferinhas já haviam perdido toda vergonha e quando menos percebemos já haviam se soltados.
“Tio, ele puxou meu cabelo!
Não pode brigar, vocês tem que ser amigos! Peçam desculpas!
Não, dele não, amanha também vou trazer um monte de brinquedo e não vou deixar ele brincar…”
Por mais que façamos é difícil acalmar os ânimos alheios. Enquanto amparo um grupinho, outro já se põe a aprontar. Boto as mãos na cabeça. O que faço agora? Viu, cadê meu boné?! (risos)
O que me consola é o fato de saber que um dia estes provavelmente vão tomar juízo, ter emprego, família (…) e ainda assim continuarão sendo crianças…! Mesmo que soe como contra-senso, acreditem: todos ainda somos “niños”- especialmente para os nossos pais.
Querem ver?
Quantas vezes você, deixou de ligar para aquele amigo, simplesmente por orgulho ou algum sentimento do tipo?
Vira e meche você faz uma birrinha para conseguir o que quer, não?
É fã incondicional de doces. Certo?
E não para por aí não. Somo crianças e ponto final. Especialmente os tidos caudilhos. Estes, nós sabemos que tem o seu clubinho – com suas regras e objeções – como toda a gurizada têm ou sonha em ter. Ali, em sua fortaleza, eles trocam singularidades, traçam metas e pouco a pouco vão descobrindo seus devaneios. Ah, e acabou essa de “menina não entra”. Hoje entram e participam dos festejos. Claro, novos tempos, novas idéias, e por ai vai…
A criança é melindrosa quando precisa. É inteligente por natureza. Está sempre bem humorada. E mostra-se extremamente protetora diante de seus chegados. Mas também sabe ser mentirosa, maldosa e briguenta. Trocam farpas e, quando menos se espera, já estão juntas novamente como se nada tivesse acontecido. Mesmo “sem querer querendo”, elas mentem, aprontam das suas, caem na gargalhada, e por fim, pedem desculpas, o que nos enternece e nos faz perdoar novamente. E para mostrar que não ficaram ressentimentos, as levamos para passear. Quem sabe depois role um jantar. Pizza? Claro, porque não?! Com direito a sobremesa dessa vez!
Ela cativa, mas também gera prejuízo – seja filho do pobre do rico -, quer sempre o melhor e o mais vistoso. Bancamos sem hesitar, afinal, trabalhamos sempre em prol de seu bem estar!
Fidelidade. Isto ela carrega consigo a qualquer custo. Mesmo que isto vá lhe custar sua integridade. Quando tem parentesco no meio então, vira uma víbora. Ela é assim, amiga e leal. Está sempre disposta em ajudar e retribuir favores. Mais o que mais me instiga, é que ela está sempre aberta a novas amizades!
Brincadeira é sua religião. Brinca até rasgar o calção. Pega-pega, pular corda, pique bandeira, uma porção de diversões para seu repertório. Ta, mais porque excluir uma brincadeira tão saudável como polícia e ladrão?! Me esqueci, os tempos são outros. Bem, ao menos ela não perdeu essa vontade louca de brincar. Brinca tanto, mas tanto, que se machuca. Às vezes até se queima. Porque não ouviu nosso conselho? Agora chora, é?
Bicho papão? Homem do saco? Boi da cara preta? Que nada, isto pra ela é mera alegoria. Na próxima festa, já disse que quer palhaços para animar a todos. É mole?
Poucas coisas lhe afligem. Seu maior temor em vida certamente é um dia ter de perder as mordomias e o caloroso aconchego dos “ pais” (…).
E aí, notaram alguma semelhança???
Aleluia! Encontrei meu boné depois de uma longa espera. Estava com aquele garoto travesso, que me causa a leve impressão de ter um ralo bigode sobre a face… Será? Espero de coração que tamanha excentricidade seja apenas uma reles miragem de minha parte.

